Declaração oficial da Sociedade Brasileira de Toxicologia (SBTox) com relação a experimentação com animais

O Brasil na contra-mão da história da Inovação Farmacêutica

 

No momento em que o Brasil coloca a inovação farmacêutica entre as principais linhas de pesquisa do país, com investimentos consideráveis do governo federal, e buscando tirar o país da dependência internacional de produção de medicamentos, ativistas extremistas destroem importante patrimônio desta pesquisa invadindo e levando ao fechamento (involuntário) de uma Instituição que se dedicou por anos a implantar e aperfeiçoar a experimentação animal visando o desenvolvimento de fármacos. O Instituto Royal informou recentemente que fechará sua Unidade de testes em animais (por motivos óbvios). Esta Instituição era uma das poucas credenciadas para realizar testes em cães, uma etapa fundamental para dar continuidade a estudos de avaliação pré-clínica (antes de administrar a seres humanos). Esta condição é exigida por todos os órgãos de regulamentações internacionais para avaliação de segurança de novas moléculas de uso terapêutico. Por um lado, a comunidade científica nacional e internacional vem investindo esforços e recursos financeiros no desenvolvimento de métodos alternativos ao uso de animais, no Brasil com a criação do Centro Brasileiro de Validação de Métodos alternativos e da Rede Nacional de Métodos alternativos. Por outro lado, sabemos que nos dias de hoje é impossível avaliarmos, de maneira mais segura possível, todos os possíveis efeitos adversos das substâncias químicas sem a experimentação animal. Podemos argumentar que animais são diferentes do homem em muitos aspectos (o que é verdade), mas foi à custa da experimentação que podemos hoje em dia minimizar o uso de animais e obter resultados mais consistentes que permitam extrapolar com mais segurança estes resultados para o ser humano. Além disto, mesmo os medicamentos para curar e proteger a saúde dos animais (por exemplo, no caso de vacinas) devem ter a segurança de uso avaliada em animais. Outro marco importante na história da experimentação animal em no Brasil foi a criação do Conselho Nacional de Experimentação Animal (CONCEA) que estabelece as regras para o uso de animais de experimentação, sendo uma delas a obrigatoriedade de que TODAS as Instituições Públicas ou Privadas constituam um Comitê de ética em Experimentação Animal. Estes têm por finalidade avaliar os protocolos quanto a sua lógica científica e, sem prejuízo do objetivo da pesquisa, sugerir a redução do numero de animais e mecanismos para minimizar o sofrimento destes. É importante que a comunidade brasileira saiba que todos os profissionais envolvidos com estes experimentos o fazem de maneira ética com o único intuito de garantir o mínimo sofrimento possível aos animais, mas permitindo se tomar uma conclusão cientifica do teste realizado. Deve se levar em conta de que a ANVISA e a CONEP e todas as instituições internacionais equivalentes, que decidem quais medicamentos podem ser testados em seres humanos não aprovarão medicamentos que não tenham sido testados em animais. Se não houver laboratórios no Brasil que façam estes testes, isto resultará numa diminuição significativa da possibilidade de que a indústria brasileira se torne produtiva e competitiva, permanecendo a elevada dependência de laboratórios estrangeiros. Isto causará uma desaceleração do esforço da indústria nacional em inovação e um aumento significativo do custo. Indivíduos que precisem de medicamentos inovadores, terão que ficar a mercê de inovações do exterior com custos exagerados. Isto custa a todo brasileiro, pois o SUS tem que adquirir e prover estes medicamentos às populações que não tem como arcar com estes custos.

A Sociedade Brasileira de Toxicologia, reconhece e apoia o esforço da comunidade científica nacional e internacional no desenvolvimento de métodos que permitam reduzir o numero e o sofrimento de animais para avaliação de toxicidade de substâncias químicas mas entende também que até o momento não é possivel atingirmos niveis de segurança de uso de medicamentos, praguicidas e substâncias químicas em geral sem a experimentação animal. Temas como este tem sido pauta de Congressos e reuniões da Sociedade e devem permanecer visando a ampliar o conhecimento científico em prol do uso seguro de sustâncias químicas, objetivo principal da Sociedade.

De nada adiantarão os esforços do governo em investir em pesquisa na área de fármacos e medicamentos, sem que seja dada condição mínima de segurança aos laboratórios dedicados a avaliar a segurança de uso de novas moléculas candidatas a fármacos. Se o Brasil tinha poucos laboratórios que com muito esforço implantaram dentro da ética da experimentação animal as técnicas necessárias para isto, hoje temos um a menos. É o Brasil na contra-mão da história da ciência e inovação mundial.

Publicado em 19 de novembro de 2013, em Uncategorized. Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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